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Segunda parte da entrevista: Ricardo Costa fala sobre o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD)

No mês de agosto, publicamos nas nossas redes uma super e importante entrevista sobre o Programa Nacional do Livro (PNLD) com Ricardo Cesar Rocha da Costa. Ele é professor de Sociologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), trabalhou por dez anos no campus São Gonçalo (2009-2019) e desde 2020 atua no campus Arraial do Cabo. Ricardo é militante e participa da coordenação do Coletivo Casulo, criado no final de 2018 com o objetivo de se organizar e oferecer debates e outras atividades de formação política sobre a conjuntura nacional e internacional. Leia a continuidade da entrevista sobre a PNLD, saiba como funciona a Frente Nacional pelo PNLD democrático e divulgue!

Se você não leu a primeira parte clique aqui.

Segunda parte da entrevista: 

1 – Explique um pouco sobre o que é, como foi formado e quais são os objetivos da Frente Nacional pelo PNLD democrático? Todos podem participar?

A Frente Nacional por um PNLD democrático foi organizada e lançada oficialmente a partir de março deste ano de 2021, e se apresenta como um coletivo de “educadores/as, estudantes, trabalhadores/as da Educação, em suas múltiplas categorias, pesquisadores/as e sindicalistas”, que se constitui como “uma Frente Nacional unificada” voltada para debater de forma crítica o atual PNLD, vinculado ao governo Bolsonaro. Esses trechos assinalados foram retirados do Manifesto da Frente, disponível em vários sites, mas também no aplicativo lançado pelo movimento no início de agosto, que pode ser acessado e baixado em https://pnlddemocratico.glideapp.io/ 

Como se percebe no Manifesto, portanto, a Frente é aberta à participação de todas e todos que tenham interesse em debater e lutar por uma educação pública comprometida com os interesses e os projetos de autonomia e protagonismo da classe trabalhadora numa perspectiva emancipatória.

Sugiro que os/as interessados/as acessem o aplicativo citado, leiam o Manifesto na íntegra e as contribuições dos colegas que se integraram à Frente, assistindo também às diversas lives organizadas, que contaram com a participação de educadores e educadoras comprometidas com a educação pública. O espaço de participação é em cada escola e na sociedade em geral, onde a luta cotidiana deve ser travada concretamente. 

2 – Como podemos lutar para ter uma educação melhor e como toda a sociedade pode pautar e estar nesta luta junto aos profissionais de educação? 

Penso que uma das grandes dificuldades que temos passa exatamente pela nossa comunicação com a população em geral. Muitas vezes, perdemos o timing e atuamos sempre reativamente, como está acontecendo exatamente neste momento, com o debate sobre o caráter do novo ensino médio e do PNLD 2021. A propaganda do Governo é eficaz e reproduz questões fortemente presentes no senso comum, como é o caso da crítica à qualidade da escola pública em geral, assim como à ineficácia das políticas de formação da juventude voltadas para o mercado de trabalho, em um contexto de crise capitalista, aumento exponencial do desemprego e avanço das políticas neoliberais de precarização, flexibilização legal e uberização dos empregos.

Em relação às escolas públicas, em momento algum os Institutos Federais são apresentados e reconhecidos como exemplos de um projeto político-pedagógico que respondem de forma positiva, minimamente, às demandas pela qualidade da educação e da formação profissional e tecnológica, com uma boa quantidade de campi espalhadas pelo território nacional, inclusive em cidades do interior. Pelo contrário, na contramão da necessidade de ampliação física e aperfeiçoamento das políticas de acesso e de permanência de jovens oriundos da classe trabalhadora periférica, a nossa Rede tem sido estrangulada economicamente ao longo dos últimos anos. Infelizmente, não conseguimos mobilizar a sociedade em nossa defesa.

Entendo que esse grande “nó” precisa ser desatado, assumido como uma tarefa central dos sindicatos e de cada docente que leciona na Rede Federal (que deveria se filiar e fortalecer a sua representação sindical). O debate sobre o PNLD, como parte integrante vinculada à contrarreforma do ensino médio, precisa ser amplamente publicizado e inserido na luta pela afirmação da educação pública, mas envolvendo também as demais redes de ensino, se transformando numa demanda que possa ser assumida por toda a população. Não é uma tarefa nem um pouco fácil, como todos e todas sabem. Mais difícil ainda em tempos de pandemia e de distanciamento social. De qualquer maneira, entendo que esta é a tarefa que está colocada no horizonte e para onde podemos e devemos utopicamente caminhar, como afirmava o saudoso jornalista uruguaio Eduardo Galeano. Mas, complementando de forma crítica o próprio Galeano, penso que a tarefa é imediata, “para ontem”, como já alertava o também saudoso escritor português José Saramago: “o único lugar que existe é o dia de amanhã, a nossa utopia é fazer alguma transformação já!” (*).

(*) Vale a pena conferir esse debate, ocorrido no V Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em janeiro de 2005, reproduzido parcialmente à época pelo site Carta Maior: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Movimentos-Sociais/Saramago-defende-nao-utopia-e-Galeano-polemiza/2/10352 Acesso: ago.21. 

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