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Entrevista com Gaudêncio Frigotto

Entrevista com Gaudêncio Frigotto sobre os impactos que os Institutos Federais de Educação (Ifs) sofrem diante do atual governo federal

Gaudêncio Frigotto, intelectual crítico, autor de dezenas de livros na área da educação, é atualmente professor associado da UERJ e professor titular em Economia Política da Educação aposentado na UFF. Frigotto é graduado e bacharel em Filosofia pela UNIJUI (RS), em Pedagogia pela UNIJUI, mestre em Administração de Sistemas Educacionais pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro e doutor em Educação: História, Política, Sociedade  pela PUC-SP. Em sua carreira, ele coleciona inúmeros prêmios e homenagens por todo o país e é responsável por fazer nascer uma outra ideia de educação dentro dos Institutos Federais, uma educação que inclui as variadas realidades brasileiras no conteúdo da sala de aula. Na entrevista, ele fala sobre esse modelo de educação, explica um pouco a sua visão em relação ao governo atual e mostra a importância de defender os Institutos Federais. Confira abaixo:

1 – Fale sobre a importância do modelo de educação dos Institutos Federais para a sociedade brasileira:   

Eu costumo dizer que os Institutos Federais, a partir das pesquisas que vêm sendo feitas, são a maior política pública de educação hoje no Brasil, do ponto de vista da sua interiorização e da incorporação, exatamente de jovens da classe trabalhadora, do campo e da cidade, que jamais conseguiriam entrar em uma escola de qualidade se não fosse através dessa política. Um exemplo: estive em uma cidade de 40 mil habitantes, Jacarezinho, no Paraná e lá, 80% dos 80 alunos entraram por inclusão do campo de cotas e inclusão por necessidade econômica. Ou seja, é a política de democratização mais significativa, porque está exatamente interiorizada e tem essa inclusão dos grupos indígenas e quilombolas, alunos de escola pública, entre outros. Sem dúvida, esta é a qualidade mais fundamental, eu diria, dos Institutos Federais.

2 – Em sua avaliação, quais são as principais contribuições, conquistas e avanços que o Instituto tem desde a sua criação? 

Eu diria que são muitas. Primeiro, é o caráter quantitativo, é uma massa de jovens, que é significativa do ponto de vista daquilo que são políticas principalmente do ensino médio, mas ainda é pouco. O segundo aspecto é de que estão fornecendo uma formação de qualidade, exatamente para aqueles que sempre foram renegados com o argumento da meritocracia, que jamais entrariam concorrendo com alunos que vieram da classe média e que tiveram uma formação na educação fundamental mais completa. Outro aspecto é de que os institutos, paulatinamente, cada vez mais foram aderindo ao ensino médio integrado, no sentido de que o ensino médio é a educação básica, então ele teria que integrar todos os campos do conhecimento humanos, então, os Institutos federais estão tendo um avanço significativo nisso.

Vou repetir ainda o caso de Jacarezinho, não porque seja o único caso, mas porque foi o último que tive contato: Quando estive lá eu assisti uma apresentação dos alunos que integra todas as disciplinas e o projeto era sobre o pão. Eles estudaram a feitura manual do pão, os elementos químicos, biológicos, culturais, a religião do pão, as regiões, uma coisa impressionante. O mundo e o pão, o ser humano e o pão, eu fiquei emocionado. São muitas as iniciativas e várias formas de integrar os campos de conhecimento e isso coloca os professores na interlocução uns com os outros. Também percebo um avanço significativo nesse sentido.

3 – Um dos pilares da Rede Federal de Educação, Ciência e Tecnologia foi a expansão e interiorização da Rede. Qual a importância dessa capilaridade, que a Rede dos Institutos Federais adquiriu, para a construção de um projeto nacional de educação?

Ele une dois elementos para construir uma educação de qualidade, os elementos materiais que são estrutura, envolve biblioteca, envolve espaço de aula, salas de aulas decentes, que tenha espaço para arte, cultura, esporte, laboratório, etc, é uma base material. Existe a concepção, sem dúvida alguma, que seja uma escola de qualidade, assim, além dessa parte material, obviamente, fundamentalmente estão também a carreira do professor, a carreira do docente, o salário docente, enfim, a formação do docente, a grande parte tem no mínimo mestrado. E portanto, já entra um segundo elemento, é o da concepção pedagógica disso que eu dizia anteriormente.

Paulatinamente, os institutos estão incorporando, até porque veem que isto permite que um aluno tenha de fato um ensino médio de qualidade. A perspectiva do integrado é a prova mais contundente de que esta é a qualidade da educação desejada universalmente, de que quando a gente vê as estatística das provas, enfim todas as provas. Os institutos se colocam num padrão da melhor qualidade internacional, acima até de países desenvolvidos, inclusive, como a gente vê ali em algumas avaliações.

4 – Outro diferencial da Rede é a proposta de valorização do trabalho docente através da dedicação exclusiva. Em sua opinião, como a quebra da dedicação integral às atividades de ensino, pesquisa e extensão afetam o modelo de educação proposto pela rede federal?

Se quebrar a dedicação exclusiva, quebra-se a espinha dorsal do Instituto, ou seja aquilo que eu falei na questão anterior, absolutamente em dois anos quebra-se e eu diria até que os institutos e a sociedade tem que começar a perceber isso no sentido de que a Emenda Constitucional 95 e a restrição de orçamento já está afetando os institutos. Por exemplo, eu vou receber um aluno de doutorado do Instituto Federal do campus Juiz de Fora no campus Santos Dumont. Lá eles têm ônibus e carro, mas não tem motorista e o ônibus está parado, os terceirizados foram mandados embora, houve restrição de restaurante, etc.

Participei também na PUC-SP de uma tese que analisa exatamente quem são os jovens dos Institutos Federais que, dominantemente, são de classe popular. Se faltar bandejão, se faltar transporte, já vai ter uma evasão enorme. E terceiro, se não tiver esse professor com dedicação exclusiva, com tempo para acompanhar esse aluno, a qualidade da formação desse aluno vai ser extremamente prejudicada. A dedicação exclusiva é a espinha dorsal do tempo do professor, da qualidade do trabalho do professor e do resultado da qualidade dos regressos dos institutos.

5 – Com esse novo governo, vários cortes orçamentários foram feitos no ensino público, como isso pode prejudicar a estrutura de ensino dos Ifs? 

Primeiro, a questão do corte, eu diria que os Institutos Federais dentro da perspectiva do governo tem um duplo motivo para estarem no olho do furacão desse desmonte. Uma é a ideia que está em todos os cantos, que é a da meritocracia. Isso significa dizer: quilombola fica no teu lugar; indígena fica no teu lugar; aluno de classe popular fica no teu lugar; jovens lá de Paracambi; da região; ou de Santos Dumont ou de Jacarezinho e de lá do interior de Rondônia, que este não é o lugar de vocês. O segundo aspecto, é que de fato as vocações científicas, elas ocorrem no ensino médio e os institutos federais salvam outras raras experiências, que eu até analisei num projeto anterior, que são o laboratório dos futuros cientistas das universidades. Então, o desmonte, é pra quebrar com a ideia do Brasil querer ter um avanço no campo da ciência, tecnologia, ciência básica e decretar que nós seremos um país da cópia, da repetição, dependendo da compra da tecnologia dos outros.

6 – Em que consiste a educação politécnica e qual a sua relação com a proposta dos Institutos Federais? De que forma as mudanças de um processo de trabalho podem contribuir para a efetivação de uma formação politécnica?

Bom, esse é um debate que se travou na década de 80, atravessou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Primeiro me pergunto, o que é uma educação tecnológica e/ou politécnica? A palavra tecnológica significa o conhecimento que está nas técnicas, a ciência que permite produzir aquela técnica que altera o modo do ser humano se relacionar com a produção em todos os campos, e politécnico, no sentido tradicional do termo, no sentido literal, geral, significa domínio de muitas técnicas. Mas, o sentido de politécnico aqui, tanto tecnológico quanto politécnico, é de que é a educação que fornece as bases científicas para entender como se processa o mundo material, da sociedade humana e da sociedade da natureza. Então, como essas palavras de educação politécnica, educação tecnológica, vieram marcadas muito por um debate ideológico, político, vistas como termos quase que subversivos do marxismo cultural, isso desde lá do início do governo Lula, o decreto 51 e 54 não vai falar de educação politécnica diretamente, vai falar ensino médio integrado na perspectiva, como travessia para educação politécnica, mas na verdade, se se fizer um ensino médio integrado efetivamente já está dentro da concepção de uma educação tecnológica e politécnica.

7 – O que você tem a dizer para todos os trabalhadores e trabalhadoras dos Institutos diante de tantos desafios a serem travados?

Eu gostaria de dizer que a defesa dos institutos federais tem que começar obviamente pelo seu corpo dirigente, professores, até por uma questão corporativa. Se os institutos não se derem conta que precisam de uma unidade substancial, profunda na defesa desta política, se de dentro você não faz isso, também de fora será difícil.

Segundo, é importante que os Institutos chamem a si, e essa é uma responsabilidade deles, a de buscar formas de acompanhar melhor esses novos sujeitos que entraram na instituição, porque a evasão e a repetência são um “calcanhar de Aquiles” muito frágil dos institutos.

Terceiro, dizer que os Institutos são patrimônio da sociedade, não é do Estado, não é do governo, não pertence ao governo do PT, não pertencesse a esse governo, é uma demanda da sociedade e, portanto, há o que se dialogar com as prefeituras, vereadores, com a igreja, com todas as restrições mostrando que essa experiência por uma questão é ideológica, conjuntural, não pode ser desmanchada. E para desmanchá-la é muito fácil, é só cortar a dedicação exclusiva, é só permanecer por 20 anos com a emenda constitucional 95, a conta do ensino médio ser empurrada aos Institutos para fazer os itinerários formativos, acaba com a perspectiva do integrado. Enfim, tem uma série de lutas que são externas e internas. Mas, tenho que dizer que os Institutos vieram e tem que ficar.

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