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Série de entrevistas: Pandemia e os novos desafios: sobrecarga de trabalho, falta de equipamentos e saúde mental

Gleyce Figueiredo de Lima

Série de entrevistas: Pandemia e os novos desafios: rotina e sobrecarga de trabalho, falta de equipamentos e saúde mental

Neste segundo semestre de 2021, nós do SINTIFRJ, enquanto sindicato de luta e que está a serviço da comunidade escolar dos Institutos Federais do Rio de Janeiro, decidimos produzir essa série de entrevistas para ouvir os/as profissionais que nestes quase dois anos de pandemia têm sofrido as consequências dessa grave crise sanitária e social. São consequências que impactam diretamente a vida psíquica. Afinal, junto a isso, há os retrocessos de direitos no serviço público, na educação, na saúde, todos eles ocasionados pelo próprio governo federal, ou seja, por aqueles que deveriam garantir a vida. Além disso, todos tiveram que lidar com a adaptação repentina com uma nova rotina de trabalho de forma remota que faz com que se tenha um acúmulo de trabalho, dentre diversos outros problemas que toda a sociedade vem sofrendo nesse momento. Para iniciar essa série de entrevistas, conversamos com a Diretora de Pesquisa, Extensão e Assistência Estudantil do Campus São Gonçalo, Gleyce Figueiredo de Lima, de 40 anos, que vem sentido esse impacto na própria vida e profissão. Leia e divulgue:

1 – Quais são os principais problemas encontrados por vocês profissionais administrativos do IFRJ durante esse período da pandemia?

A pandemia de COVID-19 e a necessária mudança da rotina profissional para o trabalho remoto reconfigurou o nosso processo de trabalho. O ambiente escolar de um campus é muito vivo, ativo, de muitas trocas e afetos. É também um ambiente de muito contato com os estudantes e isso foi completamente transformado. Pela primeira vez em 13 anos de trabalho no IFRJ, há turmas que não conhecemos, que nunca nos viram presencialmente e isso é muito novo e assustador. Costumamos fazer vínculo com os estudantes desde o primeiro dia de aula, com as atividades de acolhimento, conversando sobre o IFRJ, recebendo os/as responsáveis para apresentar o campus. Essa nova realidade impôs uma nova dinâmica de trabalho. Contatos mediados por tecnologia (e-mail, redes sociais, ligações telefônicas, reuniões virtuais e transmissões via Youtube), dificuldade em partilhar a demanda de trabalho (antes feita com uma “passada na sala ao lado”), um estado de alerta permanente (aos e-mails, WhatsApp…) e exaustão. A nova realidade também nos impôs criar condições adequadas para que o espaço doméstico pudesse atender às demandas de infraestrutura de trabalho: mobiliário (mesa e cadeira), equipamentos (computadores e celulares), melhoria do serviço de internet, dentre outros. Toda essa movimentação gerou custos adicionais a todos nós para realizar o trabalho remoto que não é coberto ou subsidiado. Também houve desdobramentos para a saúde física e emocional dos servidores tais como: ansiedade e seus sintomas, ganho de peso, doenças circulatórias dentre outras.

2 – Quais os principais desafios de um trabalho como o de vocês que requer a todo o momento uma assistência técnica, seja por parte dos profissionais ou dos estudantes, em tempos de pandemia?

O que mudou com a pandemia? A política de educação foi totalmente reconfigurada com a pandemia. 1) A escola é mais do que o lugar onde se aprende, a escola é o espaço de realização de políticas públicas mais presente na vida crianças e jovens, é o espaço onde se aprende, se é acolhido, lugar de desenvolvimento de sociabilidades, de construção de sujeitos, de alimentação do corpo e do espírito e este espaço está FECHADO há quase 02 anos. 2) Há um processo de empobrecimento, observado em todos os espaços urbanos e rurais, que produz, junto à ausência de políticas públicas, uma dificuldade para responder a um direito humanitário básico que é a alimentação e saúde; 3) Adoecimento físico e mental, provocando efeitos sobre o corpo (ansiedade, depressão, medo…); todas essas questões são grandes desafios para todos os profissionais que atuam com as políticas de permanência estudantil. Como se promove a permanência em tempos de ensino remoto? Temos buscado construir alternativas para enfrentar todos esses desafios.

3 – Como estes problemas poderiam ser evitados? O que falta para que vocês tenham mais condições técnicas para desenvolver melhor o trabalho de vocês no Instituto nesse período de pandemia e quais as consequências dessa falta de estrutura? Como a comunidade escolar e o sindicato podem nos apoiar nisso?

Estamos há 19 meses em trabalho remoto. Acho que todos nós já vivemos o medo do contágio e morte pela COVID-19, alguns adoeceram, já vivemos lutos de pessoas próximas e pessoas distantes, alguns campi são hoje comunidades escolares que viveram traumas durante a pandemia – mortes, adoecimento físico e mental. Não sei se podemos reverter o que já se passou. No dia 12/03/2020, estava retornando de férias, trabalhei e esperava voltar ao trabalho pouco tempo depois e cá estou 19 meses depois. É certo que condições estruturais de trabalho (que já sinalizei na pergunta acima) teriam aliviado muitos problemas, mas estávamos diante de algo realmente novo. Embora não tenha estado cuidando de crianças ou pessoas idosas durante a pandemia e fechamento das escolas, acompanhei o quanto foi pesada a rotina das servidoras/cuidadoras e, neste sentido, ações institucionais teriam ajudado bastante (rotinas específicas, redução de jornada…). Avalio que neste momento é importante estarmos atentos ao retorno gradual e seguro às atividades presenciais, não será uma tarefa simples. Como disse, somos uma comunidade escolar traumatizada e precisamos viver os traumas. Isso significa que não podemos retornar como se nada tivesse acontecido, como se tivéssemos feito uma pausa. Precisamos criar memórias institucionais sobre as nossas perdas e traumas durante esse período. É importante construir essa memória.  

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