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Dia mundial da água: Água não é mercadoria

22 de março é o ‘Dia Mundial da Água’, esta é uma importante data para lembrar desse bem natural que beneficia a todos, se torna também um momento essencial para que toda a sociedade reivindique cada vez mais esse direito básico. No Brasil, essa garantia de direito público, infelizmente, parece estar cada vez mais distante quando se tem governantes mais preocupados em fazer desse bem natural algo lucrativo. 

No Rio de Janeiro, por exemplo, há quase um ano todo o estado sofre com a piora do abastecimento de água, o que pode ser consequência da tentativa de privatização desse serviço. E não ter água neste momento de pandemia da Covid-19, significa colocar vidas em risco e, se tratando de um país e um estado que tem em seu histórico a desigual garantia de direitos e acesso, são as populações das favelas e das periferias as que mais serão prejudicadas.

Para falar sobre esse bem natural e sobre as atuais dificuldades que a população do Rio de Janeiro vem sofrendo com a falta d’água em meio a pandemia, o SINTIFRJ convidou a professora e doutora em Geografia do IFRJ Campus Nilópolis; especialista em Gestão e Controle Ambiental e pesquisadora do Observatório dos Conflitos Socioambientais da Baixada Fluminense, Viviane Espírito Santo Rodrigues, 42 anos. Leia abaixo a entrevista:

1 – Historicamente a população das áreas mais pobres do Rio de Janeiro sofre com a não garantia dos direitos básicos, um deles é a questão da água. De forma geral, por que você acha que a população da Baixada Fluminense é uma das mais prejudicadas com isso ainda hoje?

No Brasil como um todo, o direito à água ou a exclusão deste acesso adequado existe como uma questão pendente e reveladora de nossas profundas desigualdades. Apenas para citar alguns dados, com base no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) aproximadamente 16 % da nossa população não tem acesso ao abastecimento de água,  quase 47 % não dispõem da cobertura da coleta de esgoto (mais de 100 milhões de pessoas) e somente 46% do volume gerado de esgoto no país é tratado.

Especificamente no caso da região da Baixada Fluminense, que em geral comporta indicadores sociais muito ruins em comparação com as demais municipalidades do estado do Rio de Janeiro, a questão do abastecimento hídrico, do saneamento, fica evidenciada nas péssimas condições de vida da população. Posso citar o fato de no ranking de saneamento que comporta os 100 municípios mais populosos do país, a Baixada tem pelo menos quatro entre as piores posições: Belford Roxo; São João de Meriti; Duque de Caxias e Nova Iguaçu. Isso porque municípios como Japeri, Magé, não ranqueiam em função do número de habitantes.

2 – Há um ano, o mundo sofre com uma enorme crise sanitária por causa da chegada da pandemia da Covid-19. A água neste período se tornou um dos principais fatores para a diminuição do contágio do vírus, mas novamente todo o Rio sofre com a falta d’água. Como você percebe esse impacto da falta da distribuição da água?

A falta d’água, essencialmente em um período em que as famílias estão obrigadas a estarem muito mais tempo em suas residências, reflete tanto o descaso, principalmente com a população mais pobre, a mais afetada nestes momentos, como as decisões políticas dos atores que comandam as diferentes esferas de governo, onde se opta por não investir em melhorias, na expansão do atendimento em nome de uma redução do Estado. E aqueles que são destituídos de sua humanidade pelo não atendimento de suas necessidades básicas, sofrem ainda mais do que o restante da população pela negação de direitos básicos como o acesso à água.

3 – Como você acha que podemos pautar mais a garantia dos direitos básicos, seja no sindicato, na sala de aula ou nos próprios bairros que mais sofrem com a ausência destes tipos de direitos?

A resposta não é fácil. Não existe uma fórmula para ser usada. Mas acredito na força do diálogo. Principalmente o diálogo com as populações fora dos muros institucionais, das nossas bolhas. Mobilizar envolve comunicar, com aproximação das escolas, associações e organizações de bairro. Acredito que propondo o debate, organizando e produzindo informativos simples e didáticos. Abrindo espaço de fala e representatividade para aqueles que são os mais afetados.

E, na perspectiva da gestão pública e considerando que o Poder Executivo municipal tem a responsabilidade pelas ações do saneamento, envolver a sociedade na cobrança de um planejamento sanitário.

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